Atualmente, a preservação do patrimônio cultural edificado tem ocupado lugar central nas estratégias públicas de gestão dos municípios mineiros. O uso turístico de sítios coloniais urbanos provocou uma onda de revitalizações, restaurações e tombamentos visando conservar e divulgar os bens culturais, atrair públicos externos e melhorar a participação das cidades no ICMS Cultural – repasse tributário do Estado de Minas Gerais para os municípios que investem em preservação dos bens culturais.
Neste contexto, nota-se que os centros urbanos transformaram a cultura em atrativo para o capital. Os bens históricos arquitetônicos, interpretados como signos das identidades regionais e reafirmados como artefatos locais autênticos, são apresentados ao mercado turístico como produtos. No entanto, o status simbólico de mercadoria, adquirido pelos imóveis antigos, possibilita a reflexão sobre os significados atribuídos e os usos cotidianos desses espaços por seus moradores.
Nas sociedades ocidentais contemporâneas a noção de mercado de bens e informações culturais é ampliada, ocorrendo cada vez mais a mediação do consumo pelas “imagens culturais”. Na perspectiva patrimonial, observa-se que os bens culturais são divulgados como produtos que permitem ao expectador a experiência do passado. A circulação por entre prédios e vias antigas não significa apenas o contato material com vestígios de um tempo pregresso, mas a própria vivência do passado. Entende-se que o discurso de preservação difundido em cidades mineiras, entre elas Tiradentes, Mariana e Diamantina, além de realçar o patrimônio local como marco identitário, afirma sua importância como alternativa turística e incentiva seu consumo através de um apelo simbólico: possibilitar ao turista o contato com o passado.
Porém, ofuscados por centros históricos iluminados e repletos de atrativos, como bares, serestas e lojas de artesanato, esquecemos que a constituição urbana aponta para relações atuais e pretéritas de ocupação das cidades. A noção de que o fenômeno urbano se caracteriza pelo acúmulo de bens culturais socialmente construídos no tempo é maquiada com as mesmas tintas que cobrem as fachadas revitalizadas. O presente, através de suas características arquitetônicas e sociais, é empurrado para as periferias ou fica recluso no interior das casas de traçado colonial. Aparentemente, o fluxo não alterou o passado materializado nas construções. É essa a idéia central de muitas ações de revitalização patrimonial com vistas ao mercado turístico. Nosso desafio é definir como preservar para que as dinâmicas contemporâneas não sejam soterradas pela necessidade comercial do passado e as cidades transformadas em cenários.
Obras de revitalização da Praça da Sé em Mariana/MG

Conjunto arquitetônico em Tiradentes/MG

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ResponderExcluirBianca,
ResponderExcluirMuito bom o artigo. De fato é importante que revisemos projetos e ações executados atualmente nesta área.
Muitas vezes os objetivos das atividades desenvolvidas estão centrados apenas em resultados visuais e monetários, sem a correta sustentação técnica e, principalmente, sem a participação ou mesmo a opinião daqueles que tem relação diária com o patrimônio.
Abraços,
André