terça-feira, 3 de março de 2009

POUSADAS NA CONTRAMÃO DO MERCADO


Nos últimos dez anos, o mercado de turismo viu surgir, especialmente no trecho da Estrada Real, dezenas de centenas de pequenas Pousadas. Entoados pelo Samba de Enredo da “Verde e Rosa” esses empreendimentos, como se fossem o “ouro de aluvião” do setecentos mineiro, brotaram nas terras de Minas, nos mais diferentes cenários.

É curioso destacar que essas pequenas pousadas são caracterizadas mais pelo aspecto plural e menos pela sua singularidade. Alguns elementos, salvo raríssimas exceções, são percebidos em quase todas as peças promocionais desses estabelecimentos: existência de uma bica d’água no quintal, proximidade de uma pequena cascata ou cachoeira, comida no fogão à lenha, uma lata de leite velha decorando a recepção, um tacho pendurado na parede e a cama com uma colcha de “fuxico” e um oratório ao lado. Sob o prisma da gastronomia é sempre oferecido ao hóspede o tradicional pão de queijo, a broa de canjica ou de fubá, o queijo minas, o frango com quiabo, com ora-pro-nobis ou molho pardo e o feijão tropeiro.

Essa “comoditização” de produtos e serviços surge como se uma grande pesquisa de mercado, com a utilização das mais modernas ferramentas do marketing, tivesse apontado o perfil de produtos e serviços desejados pelo consumidor mineiro ou de outra Região do País. Surge como se um plano de viabilidade coletivo tivesse demonstrado a priori a sustentabilidade desse contingente de empreendimentos contados em milhares.

Diferentemente da indústria de transformação, das franquias de fast food ou de chocolates, que antes de se instalarem em um determinado local, se submetem à rigorosa pesquisa de mercado, a planos de viabilidade consistentes, a estudos de cenários, análises de concorrências etc., essas pousadas surgiram no boom da Estrada Real apenas motivadas pelo hobby de empresários de outros setores, pela possibilidade de diversificação dos investimentos pelos profissionais liberais ou por que alguém tinha um sítio improdutivo, uma fazenda “velha” ou pela existência de água que corria no fundo do quintal. É uma espécie de “I have a dream” tupiniquim, apenas para usar a célebre e recorrente frase de Martin Luther King, apropriada nos últimos meses por Barack Obama.

O resultado, uma década mais tarde, é que boa parte dessas pousadas está fechando suas portas para o turismo ou se tornando a principal ou a segunda residência desses empreendedores. Durante andança por alguns trechos da rota chamada de Estrada Real, no último janeiro, foi possível constatar empreendimentos completamente vazios ou quando muito, com três a cinco pessoas, completando as famílias dos proprietários. Isso, em pleno período de férias escolar e no mais fervoroso verão brasileiro!

Mas o resultado não poderia ser outro. Em linhas gerais, as pousadas não se preocupam ou não se preocuparam com algumas essenciais ferramentas de gestão. Não pensaram sequer em colocar profissionais do atendimento para o primeiro contato com o cliente. Ora, nem todos os locais têm as características temáticas para que as pessoas sejam atendidas por “gerentes-caseiros” com “pito de palha” no canto da boca ou por “recepcionistas-quitandeiras” com aventais sujos de biscoito de polvilho. Por mais pitoresca ou rural que seja um empreendimento desta natureza são necessárias algumas estratégias de marketing. Seja para a diversificação de produtos, para a promoção adequada do lugar, para a execução de um plano de mídia satisfatório, seja para a implantação de um plano de gestão profissional ou pelo menos para treinamento de pessoal. Quando muito, algumas têm sites de qualidade razoável, que muitas vezes nem retratam com legitimidade os serviços ou produtos oferecidos nesses locais.

Nesse sentido, diante da elevada concorrência entre os empreendimentos de pequeno porte e também entre os destinos mineiros, aliados à inexistência de grandes campanhas promocionais oficiais da Estrada Real, como visto no início da década - que impulsionaram o surgimento da maior parte dessas pousadas - e as deram alguma sustentação midiática espontânea, é urgente a necessidade desses pequenos empreendedores se voltarem aos ditames mercadológicos, para buscar sua sobrevivência empresarial ou mesmo para proteger os investimentos feitos para realizar seus sonhos.

É preciso, contudo, andar na mão da eficiência de mercado e deixar um pouco o silêncio e a simplicidade exagerada que às vezes permeiam o estereotipo do mineiro, prejudicando a realização de projetos consistentes e com resultado financeiro desejável.




Luiz Neves de Souza
Mestre em Turismo e Meio Ambiente
Especialista em Gestão de Empreendimentos Turísticos
luiz@solarcortereal.com.br

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