terça-feira, 31 de março de 2009

Revitalização do Centro Histórico de Itabirito: estratégia urbanística de preservação e divulgação patrimonial


As propostas de revitalização de sítios coloniais tem adquirido destaque nas políticas urbanísticas das cidades mineiras. Conforme discutido nos textos anteriores, os objetivos que impulsionam os governos municipais na recuperação de espaços construídos no passado, alguns selecionados como patrimônio, transitam entre a participação no ICMS Cultural e a inserção das cidades no mercado do turismo cultural.

No caso do município de Itabirito/MG, a decisão de revitalizar o Centro Histórico partiu do poder público municipal, como continuidade das ações de defesa do patrimônio histórico desenvolvidas desde 2005. A revitalização foi justificada pelo significado da área para a história local como primeira região povoada. A administração municipal buscou realçar o casario colonial, reafirmando o passado da localidade e aproximando-o ao das cidades vizinhas, Ouro Preto e Mariana. Desta forma, pretende-se transformar a área revitalizada em destino turístico, assim como despertar a atenção dos habitantes locais para essa região, fortalecendo vínculos de pertencimento e reforçando a identidade coletiva.

Para realçar os elementos presentes nos imóveis, foram retiradas as intervenções sobrepostas a cantaria existente em algumas construções. Em 2007, em parceria com a Associação das Cidades Históricas, foi implantada a sinalização com placas de rota de pedestre, importante instrumento de orientação para os visitantes. O projeto contemplou, em 2008, a recomposição de trechos do calçamento de pedra, implantação de painéis com dados históricos e reversão de degradações nos imóveis tombados. No entanto, a proposta de requalificação do Centro Histórico ainda não foi concluída, sendo que, para os próximos anos, deseja-se executar o cabeamento subterrâneo da rede elétrica e a reforma de outras edificações.

Em Itabirito, é perceptível como a imagem da cidade é construída a partir de vários elementos que distinguem o município na disputa pelo capital externo, entre eles o patrimônio histórico edificado, interpretado pelo poder público como símbolo da identidade local. Resta saber como a população se apropria dos elementos definidos como patrimônio pelas instâncias governamentais, pois o destino da política de preservação no município depende, em muitos sentidos, de como a comunidade interpreta e cuida de seus bens culturais, independente de sua vinculação ao turismo.

Bianca Pataro
Historiadora e mestranda em Ciências Sociais pela
PUC Minas na áreade Sociologia Urbana.

segunda-feira, 16 de março de 2009

O ICMS Cultural e a preservação patrimonial em Minas Gerais: questionamentos


A municipalização da proteção ao patrimônio cultural, promovida pelo IEPHA/MG no final da década de 1980, contribuiu para que muitos municípios de Minas Gerais organizassem legislações de preservação dos bens culturais. Além disto, a partir da implementação da Lei Estadual nº 12.040/95, conhecida como lei Hobin Hood, e da definição dos investimentos municipais em bens culturais como um dos critérios para a distribuição do ICMS, a preservação do patrimônio foi impulsionada pelas administrações públicas municipais, visando o repasse tributário[1].

Desde 1996, tem aumentado significativamente a participação dos municípios na distribuição do ICMS Cultural. Para o exercício de 2009, segundo dados divulgados pela Gerência de Cooperação Municipal do IEPHA/MG, 646 municípios mineiros foram pontuados e receberão mensalmente cerca de 20 mil reais por ponto obtido. A crescente participação das cidades mineiras no rateio do ICMS Cultural indica a existência de legislações municipais específicas para a proteção do patrimônio cultural e aponta para a atuação dos conselhos de patrimônio e para a realização de tombamentos, inventários e atividades de educação patrimonial.

São positivos os resultados da municipalização da proteção do patrimônio em Minas Gerais, sobretudo na divulgação de bens culturais localizados em pequenas localidades e, muitas vezes, desconhecidos por seus moradores. Alguns elementos definidos como patrimônio cultural não tem representatividade fora dos limites municipais e não são alvos do mercado turístico. Porém, remetem às tradições de um pequeno grupo social e atuam como mediadores entre o presente e o passado da comunidade, o que desperta para a importância de sua preservação.

No entanto, diante da expressiva participação dos municípios no ICMS Cultural, surgem certos questionamentos: as prefeituras mineiras têm utilizado os recursos financeiros advindos deste repasse para efetivamente preservar os bens culturais? As ações de educação patrimonial visam integrar a população ao processo de preservação ou são apenas usadas para atender às exigências do IEPHA/MG? Como o poder público municipal atua junto aos moradores das áreas tombadas?

Os elementos definidos pelo poder público como patrimônio são vestígios de relações sociais e representam a cultura e as interações sociais experimentadas no passado. Porém, segundo Jeudy (2005, p. 19), “Para que exista patrimônio reconhecível, é preciso que ele possa ser gerado, que uma sociedade se veja o espelho de si mesma...”. A proteção legal dos bens culturais não garante sua preservação e seu reconhecimento pela comunidade. Assim, devemos refletir sobre a atuação dos governos municipais nas ações de proteção patrimonial, ressaltando a necessidade do envolvimento comunitário para que o ICMS Cultural seja revertido na conservação dos bens tombados e que permitem aos municípios receberem tal recurso.

[1] Em 2000, foi aprovada a Lei Estadual nº 13.803 que substituiu a Lei Hobin Hood, mas não alterou o critério referente ao ICMS Cultural.

Referência bibliográfica
JEUDY, Henri-Pierre. Espelho das cidades. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.



Bianca Pataro
Historiadora e Mestranda em Ciências Sociais pela
PUC Minas na área de Sociologia Urbana.




quinta-feira, 12 de março de 2009

TURISMO: FORMAÇÃO X ATUAÇÃO PROFISSIONAL - PARTE 1: FORMAÇÃO


A formação profissional em Turismo passa por um momento de singular importância, que demanda especial atenção do ponto de vista das transformações e resultados a serem gerados para profissionais e sociedade.
Os 10 últimos anos do setor foram marcados pela ascensão e queda dos cursos de bacharelado em Turismo de instituições privadas por todo o país. Entre 2001 e 2003, o estado de Minas Gerais possuía oferta de quase 50 cursos, sendo que, agora em 2009, não há mais do que 10 em plena atividade. Infelizmente, nem o crescimento e nem o decréscimo verificados de cursos significou ganho de qualidade na formação dos estudantes.

Projetos pedagógicos arcaicos, capital humano despreparado, redução drástica de investimentos em atividades práticas, colegiados e corpo docente sem espaço para participar e intervir nas tomadas de decisões, inexistência ou desempenho insatisfatório de laboratórios e projetos de extensão, carência de bons projetos de iniciação científica, e falta de sintonia com o mercado de trabalho, são alguns dos fatores comuns aos cursos e muito prejudiciais ao aprendizado dos alunos.

Interesses meramente mercadológicos e financeiros, sem qualquer compromisso com a qualidade da formação dos graduandos, têm estimulado instituições a ofertarem novos formatos de curso superior, os quais muitas vezes nada mais são do que o resumo de cursos ruins já degradados que recebem uma maquiagem de modernidade e resultado de curto prazo. O fato é que é freqüente a formação de profissionais cada vez menos capazes de compreender a atividade turística e suas inter-relações de ordem econômica, cultural, social e ambiental, e de atuar com destaque nos diversos segmentos do setor. Ao final a única “vantagem” para o aluno é a redução das parcelas de pagamento para a obtenção do diploma, o qual se mostra pouco eficiente em geração de oportunidades, trabalho e renda dignos, e satisfação pessoal.



O objetivo deste artigo não é o de desconsiderar a necessidade de cursos Técnicos e Tecnológicos para o setor de turismo. Isso é inquestionável. Mas ao realizar uma análise sobre os currículos de vários cursos técnicos, tecnológicos e de bacharelado nesta área, verifica-se a similaridade nos conteúdos e propostas em rota de colisão. O resultado são técnicos e tecnólogos formados sem deter competências operacionais, e bacharéis sem habilidades estratégicas e gerenciais. Ao final, a ineficácia dos cursos torna-se aparente e estes acabam por adentrar ciclos de decadência caracterizados pela queda das receitas, diminuição de investimentos, perda de qualidade e redução da demanda.

Assim, é extremamente importante que sejam definidas as competências de cada um dos tipos de cursos existentes e que as instituições estabeleçam o compromisso com a formação profissional adequada aos objetivos dos estudantes e coerentes com a realidade do turismo.A perspectiva de crescimento superior da atividade turística em relação ao PIB nacional somente será viabilizada se o país puder contar com profissionais capazes de analisar, inovar e gerir o turismo com inteligência. Portanto, é inadmissível que profissionais continuem sendo formados sem entender qual o seu campo de atuação.


André Viana de Paula
Consultor em Gestão Pública e Privada do Turismo






segunda-feira, 9 de março de 2009

Patrimônio histórico e mercado turístico: reflexões iniciais

Atualmente, a preservação do patrimônio cultural edificado tem ocupado lugar central nas estratégias públicas de gestão dos municípios mineiros. O uso turístico de sítios coloniais urbanos provocou uma onda de revitalizações, restaurações e tombamentos visando conservar e divulgar os bens culturais, atrair públicos externos e melhorar a participação das cidades no ICMS Cultural – repasse tributário do Estado de Minas Gerais para os municípios que investem em preservação dos bens culturais.

Neste contexto, nota-se que os centros urbanos transformaram a cultura em atrativo para o capital. Os bens históricos arquitetônicos, interpretados como signos das identidades regionais e reafirmados como artefatos locais autênticos, são apresentados ao mercado turístico como produtos. No entanto, o status simbólico de mercadoria, adquirido pelos imóveis antigos, possibilita a reflexão sobre os significados atribuídos e os usos cotidianos desses espaços por seus moradores.

Nas sociedades ocidentais contemporâneas a noção de mercado de bens e informações culturais é ampliada, ocorrendo cada vez mais a mediação do consumo pelas “imagens culturais”. Na perspectiva patrimonial, observa-se que os bens culturais são divulgados como produtos que permitem ao expectador a experiência do passado. A circulação por entre prédios e vias antigas não significa apenas o contato material com vestígios de um tempo pregresso, mas a própria vivência do passado. Entende-se que o discurso de preservação difundido em cidades mineiras, entre elas Tiradentes, Mariana e Diamantina, além de realçar o patrimônio local como marco identitário, afirma sua importância como alternativa turística e incentiva seu consumo através de um apelo simbólico: possibilitar ao turista o contato com o passado.

Porém, ofuscados por centros históricos iluminados e repletos de atrativos, como bares, serestas e lojas de artesanato, esquecemos que a constituição urbana aponta para relações atuais e pretéritas de ocupação das cidades. A noção de que o fenômeno urbano se caracteriza pelo acúmulo de bens culturais socialmente construídos no tempo é maquiada com as mesmas tintas que cobrem as fachadas revitalizadas. O presente, através de suas características arquitetônicas e sociais, é empurrado para as periferias ou fica recluso no interior das casas de traçado colonial. Aparentemente, o fluxo não alterou o passado materializado nas construções. É essa a idéia central de muitas ações de revitalização patrimonial com vistas ao mercado turístico. Nosso desafio é definir como preservar para que as dinâmicas contemporâneas não sejam soterradas pela necessidade comercial do passado e as cidades transformadas em cenários.


Obras de revitalização da Praça da Sé em Mariana/MG


Conjunto arquitetônico em Tiradentes/MG




Bianca Pataro
Historiadora e Mestranda em Ciências Sociais pela
PUC Minas na área de Sociologia Urbana.





quinta-feira, 5 de março de 2009

Turismo de Vilarejos – Lazer, cultura e experiências singulares



A vida agitada e desgastante das cidades tem provocado a busca por ambientes tranqüilos, saudáveis e que ofereçam experiências culturais enriquecedoras para as pessoas em seus momentos de folga.

Nesse contexto, o turismo de vilarejos, atividade caracterizada pela visitação de pequenas localidades rurais, é uma boa opção por oferecer tradições culturais e o jeito de ser do mineiro, de forma autêntica e atraente aos olhos dos visitantes.

Distritos como Acuruí e São Gonçalo do Bação em Itabirito; Ipoema em Itabira; Glaura, Santo Antônio do Leite e Amarantina em Ouro Preto; são alguns dos exemplos de localidades com atrações culturais variadas.


Dia tranqüilo em São Gonçalo do Bação
Participar da produção de doces de leite ou goibadas cascão; vivenciar o dia a dia do campo, desde a retirada do leite até a produção do queijo; colocar a mão na argila para moldar peças artesanais; ou ver todo o processo de produção da boa cachaça mineira, são algumas das possibilidades.

A interação nas festas populares e religiosas com suas cores, sons, ritmos e ritos imunes às mudanças impostas pela modernidade, permitem a volta às origens da cultura mineira.

O papo despretensioso com um morador local na porta de uma venda qualquer, agregado ao conforto rústico de um bom hotel fazenda ou de uma pequena pensão domiciliar, concluem o desligamento total da rotina diária nas cidades.

Doces e artesanato em Acuruí comprados dos próprios artesãos
O fato é que esta riqueza cultural está à disposição de todos, em percursos muitas vezes inferiores a 100 km desde a capital mineira e com custos adequados a orçamentos pessoais diversos.

Entretanto, o outro lado desta questão é que ainda há pouco interesse de administradores públicos e privados na correta organização do turismo nestas pequenas localidades. Na maioria das vezes os gestores preocupam-se somente com os grandes eventos e atrações dos distritos sede, atestando assim, sua miopia em relação ao turismo vivencial no meio rural e às possibilidades de geração de ocupação e renda nas localidades.

Assim, são necessários a avaliação das características que constituem a atratividade de cada local, o envolvimento de líderes comunitários e pequenos empreendedores no processo de construção da atividade turística e a discussão constante com os moradores sobre os rumos e os objetivos que deverão ser definidos para a localidade.

Por fim, o turismo de vilarejos é uma possibilidade real para Minas e, se observada e preparada com atenção, será um grande diferencial do setor por sua gama de atrações de acesso fácil e incontestável singularidade.







André Viana de Paula
Consultor em Gestão do Turismo

terça-feira, 3 de março de 2009

POUSADAS NA CONTRAMÃO DO MERCADO


Nos últimos dez anos, o mercado de turismo viu surgir, especialmente no trecho da Estrada Real, dezenas de centenas de pequenas Pousadas. Entoados pelo Samba de Enredo da “Verde e Rosa” esses empreendimentos, como se fossem o “ouro de aluvião” do setecentos mineiro, brotaram nas terras de Minas, nos mais diferentes cenários.

É curioso destacar que essas pequenas pousadas são caracterizadas mais pelo aspecto plural e menos pela sua singularidade. Alguns elementos, salvo raríssimas exceções, são percebidos em quase todas as peças promocionais desses estabelecimentos: existência de uma bica d’água no quintal, proximidade de uma pequena cascata ou cachoeira, comida no fogão à lenha, uma lata de leite velha decorando a recepção, um tacho pendurado na parede e a cama com uma colcha de “fuxico” e um oratório ao lado. Sob o prisma da gastronomia é sempre oferecido ao hóspede o tradicional pão de queijo, a broa de canjica ou de fubá, o queijo minas, o frango com quiabo, com ora-pro-nobis ou molho pardo e o feijão tropeiro.

Essa “comoditização” de produtos e serviços surge como se uma grande pesquisa de mercado, com a utilização das mais modernas ferramentas do marketing, tivesse apontado o perfil de produtos e serviços desejados pelo consumidor mineiro ou de outra Região do País. Surge como se um plano de viabilidade coletivo tivesse demonstrado a priori a sustentabilidade desse contingente de empreendimentos contados em milhares.

Diferentemente da indústria de transformação, das franquias de fast food ou de chocolates, que antes de se instalarem em um determinado local, se submetem à rigorosa pesquisa de mercado, a planos de viabilidade consistentes, a estudos de cenários, análises de concorrências etc., essas pousadas surgiram no boom da Estrada Real apenas motivadas pelo hobby de empresários de outros setores, pela possibilidade de diversificação dos investimentos pelos profissionais liberais ou por que alguém tinha um sítio improdutivo, uma fazenda “velha” ou pela existência de água que corria no fundo do quintal. É uma espécie de “I have a dream” tupiniquim, apenas para usar a célebre e recorrente frase de Martin Luther King, apropriada nos últimos meses por Barack Obama.

O resultado, uma década mais tarde, é que boa parte dessas pousadas está fechando suas portas para o turismo ou se tornando a principal ou a segunda residência desses empreendedores. Durante andança por alguns trechos da rota chamada de Estrada Real, no último janeiro, foi possível constatar empreendimentos completamente vazios ou quando muito, com três a cinco pessoas, completando as famílias dos proprietários. Isso, em pleno período de férias escolar e no mais fervoroso verão brasileiro!

Mas o resultado não poderia ser outro. Em linhas gerais, as pousadas não se preocupam ou não se preocuparam com algumas essenciais ferramentas de gestão. Não pensaram sequer em colocar profissionais do atendimento para o primeiro contato com o cliente. Ora, nem todos os locais têm as características temáticas para que as pessoas sejam atendidas por “gerentes-caseiros” com “pito de palha” no canto da boca ou por “recepcionistas-quitandeiras” com aventais sujos de biscoito de polvilho. Por mais pitoresca ou rural que seja um empreendimento desta natureza são necessárias algumas estratégias de marketing. Seja para a diversificação de produtos, para a promoção adequada do lugar, para a execução de um plano de mídia satisfatório, seja para a implantação de um plano de gestão profissional ou pelo menos para treinamento de pessoal. Quando muito, algumas têm sites de qualidade razoável, que muitas vezes nem retratam com legitimidade os serviços ou produtos oferecidos nesses locais.

Nesse sentido, diante da elevada concorrência entre os empreendimentos de pequeno porte e também entre os destinos mineiros, aliados à inexistência de grandes campanhas promocionais oficiais da Estrada Real, como visto no início da década - que impulsionaram o surgimento da maior parte dessas pousadas - e as deram alguma sustentação midiática espontânea, é urgente a necessidade desses pequenos empreendedores se voltarem aos ditames mercadológicos, para buscar sua sobrevivência empresarial ou mesmo para proteger os investimentos feitos para realizar seus sonhos.

É preciso, contudo, andar na mão da eficiência de mercado e deixar um pouco o silêncio e a simplicidade exagerada que às vezes permeiam o estereotipo do mineiro, prejudicando a realização de projetos consistentes e com resultado financeiro desejável.




Luiz Neves de Souza
Mestre em Turismo e Meio Ambiente
Especialista em Gestão de Empreendimentos Turísticos
luiz@solarcortereal.com.br